terça-feira, 22 de março de 2011

Seth, o Deus Maldito?


de Jean Robin
Excertos de "Seth, o Deus Maldito"

O Egito nos faz lembrar o deserto implacável onde Rá, o Sol, engendra cada manhã o universo ilusório das formas, que ele dissolve cada noite em um incêndio. Terra do Espírito destruidor das aparências, sobre a qual, nos tempos pré-históricos, reinou Seth o Vermelho, com cabeça de asno, deus da violência e do trovão, homicida — ou melhor sacrificador — de seu irmão Osiris.

Deus maléfico? Não.

Antes que a incompreensão dos homens — na qual o antropomorfismo grego desempenhou seu papel – visse a obscurecer sua glória “solar” e “shivaita”, é ele, o “deus da grande bravura” que, de pé “na proa do barco de Rá”, atravessa com sua lança a horrível serpente Apopis.

Diz-se que das três piramides do Egito, a Grande Pirâmide seria o túmulo de Seyidna Idris, quer dizer Enoque. Esta tradição, tomada ao pé da letra, seria um absurdo pois Enoque “foi elevado vivo ao céu”. Mas segundo a lenda árabe, não seria Enoque que estaria enterrado na Grande Pirâmide, mas sua ciência. Alguns entenderam que seriam livros. A hipótese de inscrições hieroglíficas não era possível dado que a Grande Pirâmide não contém inscrições, em figurações simbólicas, em suas paredes. Parece que a única hipótese viável, seria a de René Guénon, de que a ciência mesma de Enoque estaria efetivamente oculta na Pirâmide, na própria estrutura do edifício, na sua disposição interior e exterior, e em suas proporções.

Esta hipótese se baseia em outra “lenda” árabe que atribui a construção das Pirâmides ao rei antediluviano Surid – certamente atlântico – que, avisado em sonhos da iminência do dilúvio, as fez edificar segundo o plano dos Sábios, e ordenou aos sacerdotes que aí depositar os segredos de suas ciências e os preceitos de sua sabedoria. Outra versão copta relata a origem das Pirâmides aos gigantes Shedid e Sheddad, filhos de Ad. Trata-se de fato de Adad ou Hadad, deus do trovão dos assiro-babilônios e sumérios, muito associado a Baal e a Seth. Diz-se também que a segunda Pirâmides seria o túmulo do Mestre de Enoque, que não teria sido outro que o próprio Seth, ao qual revem finalmente a inspiração da ciência sacerdotal da segunda coluna de pedra; aquela que deve resistir ao cataclismo a vir, colocada sob o signo do fogo. O que indica a princípio a liturgia católica no Dies Irae: «Dum veneris judicare saeculum per ignem...».

Mas de que Seth se trata? Do filho de Adão ou do deus egípcio? Como salienta Guénon o nome Set ou Sheth «... enquanto designação do filho de Adão, está longe de significar a destruição, evoca ao contrário a ideia de estabilidade e de restauração da ordem». Mas como replica Guénon, a palavra Sheth tem em hebraico os dois sentidos antagônicos de “fundamento” e de “tumulto” ou “ruína”. Guénon conclui que «os dois Sheth não são outra coisa, no fundo, que as duas serpentes do caduceu hermético: é, se se quer, a vida e a morte, produzidas uma e outra por um poder único em sua essência, mas duplo em sua manifestação».

Desta unidade original, de onde se deduz logicamente a necessária complementaridade dos dois Seth, muito mais que seu irredutível antagonismo, implica não menos logicamente a apocatástase final, a reintegração deste par de opostos em seu “eixo” comum.

Seth era designado pelos antigos autores árabes sob os nomes bizarros de Aghatimun ou Adhimun, que não são outros que a deformação grega de Agathodaimon, “a boa serpente”. O que introduz desde então a ambiguidade mencionada entre o Seth egípcio e o patriarca bíblico, que jamais poderia se assimilar a uma serpente! De qualquer modo a conexão particular entre Seth e Enoque é tão notável, na medida que este último é relacionado com certas tradições concernentes ao retorno ao paraíso terrestre, ao estado primordial, posto que deve, ele também, retornar no final dos tempos.



Imagem: Seth - god of the red sand by Rotarr
Fonte do artigo: Portal Sophia Perennis: http://www.sophia.bem-vindo.net/

2 comentários:

  1. Parabéns pelo post dear. Set sempre foi muito mal entendido, e vc falou tudo! Por um momento me vi no tópico hehehehe.

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  2. Ah sim, ia me esquecendo. Haddad, e ou, Hadad vem significar Ferreiro em Árabe. Foi dessa forma, através dos ofícios que eram praticados por cada família, que se originou a comoção dos sobrenomes.

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