sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Clarice Lispector e a sua Bruxaria






















Seminário de bruxaria
Existe na vida de Clarice Lispector um episódio misterioso e provocador de grande especulação: sua participação no I Congresso Mundial de Bruxaria, realizado em Bogotá, em 1975. O que teria levado a escritora — notoriamente avessa a falar em público — a participar de um congresso dessa natureza? O que fez ela exatamente na ocasião? Clarice estaria envolvida com bruxaria?
Essas eram algumas das perguntas que intrigavam seus admiradores até 2005, quando a Rocco publicou a íntegra de sua intervenção no livro Outros escritos, organizado pelas professoras Teresa Montero e Lícia Manzo. Soube-se então que Clarice não tinha qualquer envolvimento com bruxaria, limitando-se a atuar na área da magia. A magia da criação artística, que ela analisa no conto que apresentou no congresso, O ovo e a galinha, ilustrativo da arte como destino da vida e, sobretudo, como sua transcendência, no sentindo em que assim como o ovo é superior à galinha que o criou, a arte costuma ser maior do que o artista.
A seguir, a abertura de sua fala no Congresso Mundial de Bruxaria, e o conto O ovo e a galinha, lido na ocasião e integrante do livro Felicidade clandestina.
Literatura e Magia

   Tenho pouco a dizer para uma platéia exigente. Mas vou dizer uma coisa: para mim, o que quer que exista, existe por algum tipo de mágica. Além disso, os fenômenos naturais são mais mágicos do que os sobrenaturais. Dois meses atrás aconteceu uma coisa comigo que chego a estremecer, só de pensar. Eu estava angustiada, sozinha, sem perspectiva nenhuma, vocês sabem como é. Quando de repente, sem nenhum aviso, uma chuvarada, seguida por uma ventania, começou a cair. Essa chuva súbita me liberou, liberou toda a minha energia, trouxe calma e me deixou tão relaxada que logo depois dormi profundamente, aliviada. A chuva e eu, nós duas tivemos um relacionamento mágico. No dia seguinte li no jornal, para surpresa minha, que a chuva que tinha me afetado como magia branca, afetara outras pessoas como magia negra. As reportagens diziam que tinha sido uma chuva muito forte, com granizo em alguns lugares, que tinha destelhado muitas casas, que quase provocara a queda de um avião.
Também considero mágico o sol inexplicável que aquece todo o meu corpo. Mágico também é o fato de termos inventado Deus e que, por milagre, Ele existe. Eu mesma, pelo menos conscientemente, jamais lidei diretamente com mágica. No entanto, pintei um quadro, e uma amiga me aconselhou a não olhar para ele, pois poderia me fazer mal. Concordei. No quadro, que chamei de “Terror”, arranquei de mim, talvez através da magia, todo o horror que um ser sente no mundo. A tela era pintada de preto, quase no centro havia uma terrível mancha amarelo escuro, e dentro dessa mancha algo vermelho, preto e amarelo vivo. Parecia uma mariposa sem dentes querendo gritar, sem conseguir. Perto da massa amarela, por cima do preto, pintei dois pontos completamente brancos que talvez fossem a promessa do alívio futuro. Olhar para esse quadro me faz mal.
   Não acredito em nada. Ao mesmo tempo acredito em tudo. No dia primeiro de janeiro de 1974 estava parada nos degraus de uma escada perto da casa de um amigo, à espera dele. Fazia muito calor e tudo parecia deserto. Era um feriado e de repente fiquei completamente desesperada, sem perspectiva nenhuma. Cobri o rosto com as mãos e pensei: Por favor, meu Deus, mande-me pelo menos algum símbolo de paz. Então abri os olhos e um minuto depois vi dois pombos perto de mim. Fiquei surpresa e um pouco assustada. Logo depois fomos ao cinema, meu amigo e eu. Perto do cinema havia uma loja fechada, porque era feriado, e vi através da vitrine uma espécie de pote com quatro pombos dentro. No dia seguinte fui até aquela loja e comprei o enfeite de porcelana. No outro dia uma pequena pena de pombo caiu em cima de mim. Eu a perdi. E o episódio com o pássaro aconteceu de forma dramática. Era mais uma vez um dia muito quente e eu estava completamente exausta. Voltava do centro da cidade num táxi. Usava óculos escuros. E tão cansada que apoiei a cabeça no braço, tentando descansar um pouco. Então senti alguma coisa me incomodando, entre a lente dos óculos e o meu olho esquerdo. Tirei os óculos e achei uma pena de pombo. Sem comentários. Dois dias depois fui consultar um médico amigo meu e novamente peguei um táxi. O motorista freou de repente. Perguntei para ele, o que houve? Ele respondeu, quase matei um pombo, mas graças a Deus, ele escapou. Cheguei ao consultório do meu amigo e contei para ele aquela história dos pombos desde o início. E perguntei, qual o significado dessas coisas estranhas? Ele respondeu sorrindo, coisas boas não precisam de explicação. E disse mais, quer que eu lhe dê uma pena de pombo? Eu disse, claro que sim, se tiver uma. Ele se abaixou, pegou uma pena no chão e me deu. Ainda sem comentários.
Um dia aconteceu outra coisa com um amigo meu. Ele tinha um lindo curió, pássaro raro de se encontrar no Rio, especialmente em Copacabana. Uma manhã, quando foi alimentá-lo, viu com tristeza que o curió tinha morrido. Não havia nada que pudesse fazer além de lamentar a morte do passarinho. Uma hora depois a empregada gritou, vem cá depressa, vem ver uma coisa. Todos foram para os fundos da casa e viram, tremendo um pouco, no chão, um curió. O passarinho não tentou escapar e foi posto na gaiola. Comeu e começou a cantar. Eu pergunto, por quê? Para quê? Também não existe resposta para o fato de haver, numa pequena semente, numa simples semente de árvore, essa promessa de vida, o fenômeno de uma semente que contém vida é totalmente impossível. Um escritor brasileiro disse que estar vivo é impossível, e eu acrescento que nascer é impossível.
   E para terminar, direi uma coisa que pode parecer absurda, porque o que vou dizer é alta matemática, mágica pura. A mágica em relação ao que se escreve chama atenção para a palavra “inspiração”. Como explicar a inspiração? Às vezes, no meio da noite, dormindo um sono profundo, eu acordo de repente, anoto uma frase cheia de palavras novas, depois volto a dormir como se nada tivesse acontecido. Escrever, e falo de escrever de verdade, é completamente mágico. As palavras vêm de lugares tão distantes dentro de mim que parecem ter sido pensadas por desconhecidos, e não por mim mesma. Os críticos consideram que escrevo o que chamam de “realismo mágico”. E um crítico, não me lembro de qual país da América Latina, escreveu sobre mim: ela não é escritora, é uma bruxa.
  E agora quero ouvir o que vocês sabem sobre bruxaria."



Segundo Ana Mariano, em A descoberta do mundo, Clarice faz referência a esse congresso no qual teria ficado apenas um dia porque se deu conta que nada tinha a fazer ali, sua “bruxaria” era outra. 


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Os diferentes tipos de terra e seus usos na Arte

Por Sara Star

Diferentes tipos de terra têm uma energia muito poderosa e muitas dessas energias são específicas para auxiliar nos trabalhos mágicos. Existem alguns padrões na bruxaria tradicional, e em muitas tradições Africanas. Há mais do que apenas três principais tipos de terra para trabalhos mágicos, que são: terra do cemitério, terra de marcas de pegadas e terra de encruzilhadas. Por exemplo, a terra da sua terra natal, terras especiais de lugares que você visita ou de eventos naturais, como as cinzas de um vulcão. No entanto, os tipos clássicos de terra têm um lugar especial na magia.



Terra de Cemitério:

Magia com terra de cemitério aparece em muitas culturas, simplesmente em qualquer lugar que use sepulturas, e naquelas que inutilizam as cinzas de um falecido cremado. Há três abordagens principais para a coleta de terra de cemitério.

*Apenas coletando terra de um cemitério.
* Selecionando terra especifica de uma sepultura adequada, dependendo da necessidade. Se for para entrar em contato com antepassados, o então de sepultura de membros da família, para amaldiçoar, terra de túmulo de assassinos, ou terra do tumulo de um bruxo famoso e assim por diante.
* Usar as ervas que são apelidadas de "do cemitério" [1]  ou relacionadas ao "pó" como o patchouli, verbasco e valeriana.

Para obter terra de cemitério e deixar um agradecimento adequado ao mesmo tempo, você não precisa se esgueirar no cemitério à noite esperando que ninguém o veja e pergunte o que infernos você está fazendo. Ao invés disso você pode pegar um vaso com algo já plantado, cavar um buraco para ele no cemitério e colocar a terra recolhida no pote agora vazio e para levar para casa. Você também pode misturar ervas de cemitério, com patchouli ou valeriana, em terra normal para torná-la em terra de cemitério. Ou você pode apenas discretamente pegar um punhado de terra em algum lugar escondido no cemitério e colocá-la em seu bolso ou numa pequena bolsa.

Feitiços de proteção com terra de cemitério trabalham na idéia de que o espírito do falecido irá protegê-lo pessoalmente. Você pode escolher um candidato provável, um ente querido ou um desconhecido que é reconhecido por ser forte como um soldado e tal.

Terra de cemitério é o componente principal em um feitiço Voodoo em pó chamado "pó dos bobos" [2].



Terra de marcas de pegada:

Magias com terra de pegadas são mencionadas entre os gregos, os hebraicos e africanos. Existem duas formas principais de usar terra de pegadas: Para fazer algo ao respectivo dono da pegada encontrada, como feitiços ou maldições ou para usar em um trabalho mágico.

Pode-se usar a terra da pegada de alguém para expulsa-los e assim não voltarem mais ou mesmo para incentivá-los a voltar. Talvez um amante tenha deixado-a com um pouco de pressa, e talvez você desejes laçar ele através da marca de pegada deixada, misturando a terra com afrodisíacos para que eles possam voltar em breve.

Sua casa foi invadida, você encontra as impressões das pegadas dos intrusos, você pode enfeitiçá-los ou amaldiçoá-los. Mas cuidado, uma amiga postou uma história descrevendo seu plano de fazer um feitiço do tipo, derrepente ela intuitivamente parou, e não completou a magia. Seu filho estava constrangido, pois ele tinha perdido a chave mais uma vez e estava preocupado com o castigo, assim escondeu que ele era o invasor.

De extrema importância em qualquer feitiço com impressões do pé, é sempre pegar a terra da pegada certa. Você não quer fazer Magia Sexual com o carteiro ou o seu pai, e você não querer banir a sua filha quando você somente pretende manter a revendedora da Avon distante.

Terra de Encruzilhadas:

Encruzilhadas simbolizam uma convergência de energias e possibilidades, o destino e a transformação.

Existem dois tipos de cruzamento, os de três vias e os cruzamentos de quatro vias.

* Hecate rege qualquer encruzilhada de três cruzamentos.
* Hermes rege qualquer cruzamento de quatro vias.

Obter terra de encruzilhada é, às vezes, difícil, e alguns feitiços exigem o uso de cruzamentos abandonados porque os espíritos vagam mais ali do que em rodovias lotadas.

Se você estiver procurando por encruzilhadas em desuso, vá a cidades fantasmas [3], complexos habitacionais abandonados com estradas, antigas estradas florestais, e os caminhos do país.

Se você está tentando recolher terra ou trabalhar em uma encruzilhada movimentada, não vá para o meio sem usar a faixa de pedestres, você não quer ser atropelado. Oferendas a encruzilhadas e o recolhimento de terra de encruzilhadas devem ser feitas nos lados do cruzamento (como na calçada) e não no meio.

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Copyright 2009 Sara Star.
Tradução por David Hex.
Original: Dirts em http://spiritscraft.wordpress.com
Notas:
1. NT: no original "graveyard dirt" ou "terra de cemitério". O patchouli é relacionado à Morte. Aqui preferi traduzir como "do Cemitério, já que o Cravo é uma planta relacionada aos mortos e constantemente apelidado de "cravo do cemitério" ou "cravo dos mortos" no Brasil.
2. NT: No original "goofer dust". É em geral um pó usado para lançar feitiços, em especial os que causam males e do tipo "Me ame ou morra".
3. NT: i.e. Cidades mortas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Refletir como o Espelho

“Em certa parte de nossas vidas nos deparamos com a questão de Ser o que buscamos, muitos pensarão que enfim chegam os primeiros frutos da primeira plantação e com ela seu precioso valor, neste ponto podemos nos deparar com questões como: se realmente sou o que busco, porque busco? Tenho medo de ser o que busco? Medo de aceitar quem sou e toda minha sabedoria inerente? Porque buscar se tudo que quero está tão perto que finjo não ver? Este é o momento de coragem, o precioso valor que ganhamos é o momento de mudar, onde nossos espelhos nos julgam com nossas próprias palavras e atitudes, neste momento não deve haver ressentimentos do que fez ou não fez, aqui só o autentico sobrevive. Tenha coragem e continue, ou aceite o que você não é.”



David Cavalcante.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Histórias Medievais - Herman Hesse

Encontrei esse livro numa biblioteca, tenho tantos amigos bibliotecários que acabo não comprando nem um livro, ganho qualquer um pelos laços da amizade bem fecundada. Hoje decidi ler esse, e apesar do livro ser uma compilação de textos curtos que serviam para ensinar os noviços na Idade Média, nele há xilogravuras muito interessantes e contos sobre o Diabo que é hilário.


Na introdução há um trecho que me deixou maravilhado pela imensa semelhança com a seguinte frase de Andrew Chumbley em uma entrevista feita pela Revista The Cauldron (No Brasil publicado pela Revista O Caldeirão):

"Para compreender as formas de continuidade interna não se deve, porém, comparar antigüidade com autenticidade;
a origem da Bruxaria Sabática é a do Momento, além do passado e futuro. A perspectiva  linear de 'tempo' assumida
pela análise histórica deve ser reconhecida como tendo valor limitado,
quando se  considera e representa as manifestações de contextos atemporais de experiência."

O trecho em questão fala de histórias daqueles "tempos fabulosos que produziram, ao lado da bruxaria, o culto a Madona" Veja o trecho:

"Para 'homem culto' de hoje, o mundo de conceitos e crenças dessas histórias singulares é quando muito uma curiosidade, para muitos até algo ridículo ou odioso, um típico pedaço 'obscura da Idade Média'. Mas se o homem culto de hoje, cujo saber e crença conseguiram unicamente provocar o atual estado de barbárie da Europa, procurar nas Histórias os inícios dessa situação moderna, encontrará ali exatamente essa mal-afamada Idade Média, o período do florescimento do cristianismo europeu e da vida intuitiva, como um paraíso perdido." E mais: "Quanto mais lucidamente afastarmos nosso coração do cheiro do incenso e das cinzas da penitência, tanto mais depressa voltarão a nos pertencer os valores espirituais intocados daqueles séculos obscuros, e sua literatura." "O traje (dessas histórias) é sempre antigo, mas o conteúdo não é velho nem novo, e sim intemporal, merecendo o nosso interesse, como tudo que é humano."

(Histórias Medievais - Herman Hesse, Ed. Record 2° Edição)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Catimbó, abre-caminho.

Catimbó, Abre-caminho.


Caximbo, maracá, água benta e terço na mão. Tira-mandinga, despacho, abre-caminho, jurema, benzeção, cura. O mestre da mesa e o mestre invisível.